O SONHO DO ARQUITETO

Uma das coisas que o homem procura quando produz arte é o reconhecimento de uma autoria, que o seu legado seja transmitido através das suas criações. O arquiteto, por natureza educado com bases artísticas, não é alheio a esse sentimento. O desejo de criar, de ser autor, de deixar a sua marca corre no sangue da maioria. 

Esta questão pode abrir um debate muito complexo ligado à autoria de uma obra arquitetónica mas não é esse o meu propósito. Entendamos simplesmente, para o efeito, que um arquiteto, em condições ideiais (sem legislação, sem gravidade, sem clima, sem clientes, sem orçamento, sem limitações técnicas, etc.,) seria 100% autor de uma obra. Ora, será por isso lógico que não existe nenhum arquiteto que tenha sido 100% autor de nada. Esta condição natural do arquiteto, verifica-se com muita intencidade em Ponte da Barca, onde vivo. Desde 2009, apenas 19 % dos projetos aprovados na Câmara foram assinados por um arquiteto. Muitos destes, sei porque conheço, mal foram vistos pelo arquiteto que assinou. Sobram os projetos que foram realmente desenhados por arquitetos e, mesmo esses, dificilmente se seguem ao pormenor, sofrendo muitas alterações em obra que os descaracterizam significativamente. 
O arquiteto será, das categorias de pessoas ligadas à construção, a menos influente na concepção de um edifício. 
Os autores de arquitetura estão por todo o lado. Dificilmente se encontra aqui uma família que não esteja ligada à construção civil, muito devido ao boom construtivo do último terço do século passado. Isto cria uma sociedade que debate constantemente questões construtivas, em conversas de café, num almoço de família, no fim de uma missa. Todos sabem de construção e por isso a construção torna-se um elemento social agregador. Uns são pedreiros, outros empreiteiros, outros carpinteiros, outros trolhas, outros eletricistas, outros picheleiros, outros pintores, outros serralheiros, outros engenheiros, outros arquitetos, outros vendedores, outros clientes, outros são mulheres dos clientes e ainda há gente que acumula cargos, tipo um pedreiro-trolha, um cliente-carpinteiro, um engenheiro-empreiteiro, um picheleiro-eletricista.
Depois à os chamados "fiscais", não no sentido técnico do termo, pessoas que, não tendo qualquer ligação à obra, visitam o estaleiro em andamento por curiosidade, para 2 dedos de conversa com os trabalhadores e saber em primeira mão como vai ficar a construção, deixando inevitavelmente os seus comentários e sugestões.
Toda a gente toma decisões, voluntaria ou involuntariamente, activa ou passivamente, de um modo mais ou menos significativo e todos participam, por isso, na autoria da obra. 
Ser um arquiteto num meio onde todos sabem de arquitetura torna-se por isso uma tarefa desafiante, o sonho de qualquer arquiteto.