VILA DO RISCO AO LADO - PONTE DA BARCA




Não sou nem pretendo ser um historiador de urbanismo, mas como jovem barquense tenho uma certa curiosidade pelas pistas do passado que me vão surgindo, quer em conversas com os mais velhos, quer em fotografias antigas que me aparecem aqui e ali...

Gostei especialmente desta a preto e branco que encontrei emoldurada na parede do edifício "santo António do Buraquinho" , que mostra Ponte da Barca numa altura em que já haviam helicópteros mas ainda não se tiravam fotos a cores (como vêm, o meu rigor histórico é quase nulo, mas para efeitos do que pretendo refletir, serve perfeitamente).
A foto permite perceber o que acaba por ser lógico: a travessia principal na origem do aglomerado urbano de Ponte da Barca não seria o famoso risco ao meio que tanto os nosso vizinhos satirizam, mas sim aquela rua apertada e ziguezagueante que passa a sul da igreja, ao lado da capela de S. Bartolomeu, da antiga GNR e da capela de Sto António, mais acima. De facto, o risco ao meio, que afinal é um risco ao lado, foi o motor para o desenvolvimento da vila de Ponte da Barca e tornando-se central por mérito e não "à nascença".
Nesta fotografia, provavelmente do fim dos anos 80/início dos anos 90, nota-se já uma consolidação da malha urbana da vila, em edifícios de pequena escala. As intervenções na frente de rio dos últimos anos ainda não tinham sido feitas, nem mesmo o campo da feira. 

Estas fotos recentes, posteriores às intervenções na margem Sul do rio Lima, mostram o esforço para a criação de espaço público de qualidade em Ponte da Barca. De facto, independentemente da qualidade das intervenções, é preciso dar mérito às últimas autarquias pelo trabalho, que certamente já dá frutos. 

Voltando então à questão do risco ao meio, penso que será redutor assim descrevermos a morfologia da vila, e muito mais redutor se essa for a descrição do seu movimento/circulação. Hoje em dia, esse risco ao meio, criado para facilitar a circulação, deixou de ser central, com a criação dos acessos marginais a Nascente (Nacional 101 e ponte nova) e a Poente, a rua Agrelos junto ao vale do Vade, que os barquenses chamam de Variante. Quem passa pela Barca já nao passa pelo risco ao meio, a não ser que tenha de ir mesmo à Barca. O território que surgiu e cresceu durante toda a sua história sob esta atmosfera de local de passagem, está cada vez mais fechado aos viajantes. Por isso mesmo, Ponte da Barca deve considerar as novas vias de circulação como motores de desenvolviemnto, ou arrisca-se a ficar sozinha, voltada para o seu risco ao meio.

Não é preciso um olhar muito atento para perceber que há cicatrizes dos tempos em que a travessia se fazia pelo risco ao meio, que ainda não foram totalmente curadas, ou que foram ignoradas.

Um dos casos que sensibiliza é o da antiga garagem automóvel e bomba de gasolina, que entretanto já foi de tudo um pouco, desde sede de campanha partidária a loja dos chineses. Um imóvel com um valor considerável, por se tratar de um exemplar único do movimento moderno em Ponte da Barca.





Esta publicação não pretende ser uma crítica às opções urbanísticas no território, mas antes um relato da sua evolução geral. Acaba por ser vago tudo o que escrevo, reconheço, mas há tanto para dizer sobre este território que terá de ficar para publicações mais concretas e delimitadas.