ARQUITETROLHA

(eu, talvez em 2003, numa primeira intervenção na casa de Lavradas, atualmente a ser restaurada sob minha orientação)
Estou numa crise de sentido...
Cresci a chamar trolhas ao que todos chamam pedreiros. Para mim, um pedreiro é alguém que constrói alvenaria em pedra. Um trolha, por exclusão, seria alguém que construía em materiais mais artificiais como tijolo e betão.
Segundo o google, parece que afinal trolha é a colher, e não o executante. No português do povo, o pedreiro e o trolha são sensivelmente a mesma coisa. Concluíndo, uma trolha é um instrumento mas pode ser também um pedreiro, um operário da construção civil. Até aqui é claro, o que é menos claro é perceber o desprezo com que a sociedade contemorânea, filha de trolhas, vê a profissão. Porque será? Haverá assim tantas profissões mais honrosas?
Faz-me uma certa confusão. Vejamos: quantos de nós não crescemos fascinados com as construções lego? Quantos não tivemos o camião e a escavadora de brincar? Quantos não tentámos construir castelos na areia com a pá e o balde? Terei sido o único? Será que, por termos medo de ser trolhas, preferimos fingir que nunca quisemos ser?

Para mim, o único problema da profissão é que, sendo demasiado dura para uma sociedade baseada no comodismo, as pessoas amedrontam-se. E, por isso, pensarão com certeza que quem decide trabalhar na construção, é limitado e viu na construção a única saída possível. Preferimos sentar no escritório o dia todo que brincar aos legos à escala 1:1. Mas a minha paixão por construir não me tem deixado ficar em frente ao computador e foi por isso que pus, literalmente, mãos à obra.
Acabei o curso de arquitetura (falta a tese, que é uma treta). O meu pai decidiu recuperar uma casa rural herdada e, obviamente, fiz o projeto. Como não pertenço à ordem dos arquitetos, alguém assinou a papelada por mim e a coisa foi aprovada. Contratámos um tio meu para o trabalho. A casa é em alvenaria de granito. Convenientemente, o meu pai tem uma pequena fábrica de transformação de granito, o que nos permite controlar a produção e os custos das pedras necessárias para a transformação.
Mal os trabalhos arrancaram, comecei a visitar a obra. Não tenho grande experiência prática de trolha, mas aos poucos fui ajudando com coisas simples, como acarretar sacos de cimento ou ajudar a betonar a laje. Actualmente estou a picar pedra para as ombreiras e padieiras da porta. O projeto inicial não era totalmente rigoroso, até porque o levantamento topográfico não estava correto. No local, vão-se descobrindo problemas novos que exigem soluções novas. O material vai ditando as regras e o ficheiro autocad vai sendo actualizado, testando decisão após decisão.
É um projeto em tempo real, como faziam os arquitetos antes do tratado do Alberti.

Haverá melhor estágio profissional? Em 6 anos a fazer projetos, nunca nenhum me deu tanto prazer. Acho que quero ser arquitetrolha.