O MITO DA CRIAÇÃO DIVINA

A formação de arquitetos é cega. O arquiteto mainstream ganha a ideia de que é um criador, uma espécie de Deus na Terra, capaz de criar a perfeição. Regozija-se ao saber que até Deus falhou a sua criação perfeita, e vai insistindo no erro com uma vantagem clara: a fotografia. A perfeição da criação desmorona-se quando aparece a serpente, a tentação, o diabo, coisas que também podem ser chamadas de patologias da vida. Por isso, há que tirar a fotografia antes que a vida estrague tudo.
Como homens, deveríamos estar destinados a viver num mundo holístico entre a preocupação política, a resposta científica e o prazer. Infelizmente, o mundo está cada vez mais estetizado. Confunde-se estética com prazer, sobrepõe-se a imagem à essência, contorna-se a razão pela beleza. É comum, por exemplo, os arquitetos fotografarem as suas obras antes delas serem habitadas, antes da “pureza” e “perfeição” serem contaminadas pela vida. Mas arquitetura não é nada sem vida, como declaram os mestres (Corbusier, Niemeyer, etc.) quando se lhes aperta o cu, e vêm essa vida por um fio...
Nós, arquitetos, habituamo-nos a criticar as arquiteturas malditas, as casas de emigrantes, os pato-bravos, os bairros de lata, as construções ilegais, as aberrações das mais variadas naturezas. E fechamos os olhos à vida, à pós-ocupação da intocável virgem branca, que Fernando Távora desmitificou a tempo e horas:
Durante anos eu pensei a Arquitectura como qualquer coisa de diferente, de especial, de sublime e extraterreno, qualquer coisa como uma intocável virgem branca (...). Rodaram os anos. (...) Acreditei então que a Arquitectura era sobretudo um acontecimento como tantos outros que preenchem a vida dos homens e, como todos eles, sujeita às contingências que a mesma vida implica. E a intocável virgem branca tornou-se para mim numa manifestação da vida. (...) E o mito desfez-se.”
Ser arquiteto na era do Fernando Guerra, do Archdaily, da tvi, do facebook e dos Aires Mateus não é tarefa fácil.
Os Aires Mateus continuam a projetar intocáveis virgens brancas, obras que poderão até ter profundidade e reflexão, que adquiriram com algum mérito um certo mediatismo, mas que pelas plataformas de divulgação, lançam às novas gerações de arquitetos pistas erradas para o processo de conceção. Assim, vão surgindo aqui e ali novas formas arquitetónicas fotogénicas, que atropelam muitas vezes a razão e o bom senso na busca desesperada do reconhecimento artístico e da masturbação estética.
Resumindo, há um sério problema de sobreposição da beleza e perfeição da sociedade, em mundos muito mais abrangentes que o da arquitetura. Já vimos, no século passado, a Alemanha a procurar a perfeição e deu para o torto. O próprio Deus falhou. Aprendamos a lidar com o imperfeito e achar aí a beleza, sejamos nós, arquitetos, o elo de ligação entre a arte, a técnica e a vida, e desçamos finalmente à Terra onde temos tanto a fazer, a tantos níveis.

Acabo com um apontamento a propósito do tema. Hoje, na visita à casa de um vizinho, constatei mais uma vez esta realidade.
Dizia o meu vizinho: - “Eu e a minha mulher queríamos mudar este móvel, está aqui a embaraçar, e fechar ali duas das janelas porque esta parte da casa é fria no inverno e quente no verão, mas o arquiteto diz que quer vir cá tirar umas fotografias e tem de estar tudo como ele desenhou. E depois disse que essas coisas de alterações exteriores são sempre difíceis. Na altura do projeto nós mudamos várias coisas e ainda queríamos mudar mais. Mas ele na altura aconselhou a andar para a frente que depois se mudava, e não se mudou nada. O problema é que mudar de arquiteto não é como mudar de médico ou de cabeleireiro, senão tínhamos mudado.”

Se ao menos Deus tivesse chamado o Fernando Guerra para fotografar Adão...